A mulher brasileira e as desigualdades no mercado de trabalho

 

Um olhar amoroso e realista pela história. Essa é a chave para compreender a posição das mulheres no mercado de trabalho em 2020.

Olhar apenas para a realidade atual é ficar na superficialidade dos fatos. Mesmo que aponte avanços e mostre um longo e árduo caminho a ser percorrido, se ficarmos somente nessa análise não estaremos levando em conta toda a trajetória social, humana e mercadológica que levaram as mulheres a mudar o cenário econômico no Brasil e no mundo e a imprimir valores femininos sobre a política, a economia, a educação, os negócios, a ciência e muito mais.

Vamos embarcar nessa viagem?

A fachada social

Hoje é mais do que normal ver mulheres trabalhando nas mais diversas áreas e atividades. Mas por séculos, a sociedade era estruturada para que o homem fosse o único provedor do lar e as mulheres tivessem suas funções limitadas a cuidados com a casa e os filhos.

Mas isso era apenas a “fachada” social.

No lado B da sociedade as mulheres que não pertenciam a uma “elite” também respondiam pelo sustento de suas famílias e com imensas dificuldades. Falamos das viúvas, solteiras, trabalhadoras do campo e das mulheres vindas de camadas mais pobres e marginais que pela forca implacável da sobrevivência eram extremamente mal vistas por buscarem trabalho fora de casa.

Chega a Revolução Industrial na segunda metade do século 18 e com ela a enorme demanda por mão de obra barata. E aí as coisas se modificam, muito mais por imposição do capitalismo do que por algum ideal revolucionário feminino da época.

As mulheres começaram a trabalhar nas indústrias e, como recebiam salários mais baixos, o setor industrial passou a dar prioridade a essa mão de obra.

Alvoroço na medicina

Apesar da forma como a inserção da mulher no mercado de trabalho aconteceu, esse foi um processo decisivo, ainda que lento, para que as mulheres passassem a ter acesso à educação formal, ao voto e a uma participação social mais expressiva.

Como exemplo, vale reter um o olhar na história do Brasil para encontrar no ano de 1887 a primeira mulher graduada no ensino superior do país, pela Faculdade de Medicina da Bahia, a doutora Rita Lobato Velho Lopes.

A médica era levada às aulas por seu pai que a esperava até o horário da saída. E detalhe: a presença da moça à universidade provocou tamanho reboliço na estrutura da escola que foi preciso construir banheiros femininos, já que a faculdade não dispunha.

Durante as aulas de anatomia, em que havia contato direto com corpos, Rita era obrigada a se fazer acompanhar por outra mulher e obrigatoriamente casada!

Fica difícil imaginar em pleno século 21 uma situação assim. Dados recentes da Demografia Médica mostram o quanto o cenário mudou. Ao final de 2018 as mulheres já representavam 57,4% dos profissionais médicos com até 29 anos.

O inicio da mudança

Com a República instalada em 1889, o movimento pelos direitos das mulheres no Brasil se torna mais amplo.

Devido às pressões dos movimentos feministas, as brasileiras conseguiram o direito de voto em 1932.

Mais um salto no tempo e chegamos a 1970, quando as mulheres, de fato, começaram a ocupar outros espaços fora das casas. Essa mudança tem muito a ver com o próprio contexto histórico da época, em que vários movimentos passaram a ir às ruas para exigir seus direitos.

Muitas brasileiras lutaram contra a ditadura militar e foram presas, torturadas e exiladas. Participaram tanto da resistência pacífica em passeatas quanto do movimento armado na Guerrilha do Araguaia, por exemplo.

Em 1975 a ONU institui o Ano Internacional das Mulheres em paralelo ao 1º Encontro de Mulheres do Rio de Janeiro e ao Encontro para o Diagnóstico da Mulher Paulista que deram origem ao centro de Desenvolvimento da Mulher brasileira.

Décadas de 1980, 1990 e 2000

Com a volta da democracia ao Brasil, as mulheres ganham mais protagonismo no governo com a criação, em 1985, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM).

Entre as conquistas deste período estão a igualdade jurídica entre homens e mulheres, licença-maternidade com duração superior à da licença-paternidade; o incentivo ao trabalho da mulher, mediante normas protetoras; prazo mais curto para a aposentadoria por tempo de serviço e contribuição da mulher.

Chega o novo milênio e o movimento de mulheres brasileiras acompanha as demandas sociais com a inclusão de novos temas à sua agenda como a diversidade sexual, racial e o questionamento da maternidade como uma obrigação.

O mercado de trabalho hoje

Hoje temos acesso a uma infinidade de estatísticas sobre a condição feminina e o mercado de trabalho. Mas os números são apenas parte de um debate complexo envolvendo a desigualdade histórica entre mulheres e homens.

As diferenças permanecem. Acompanhe.

Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam um crescimento acentuado da participação da mulher no mercado de trabalho. Menos de 14% das mulheres tinha emprego nos anos 1950, e o último censo (2010) mostra que esse número passou para 49,9%.

No Brasil, o Ministério do Trabalho aponta um salto na ocupação feminina em postos de trabalho de 40,8% em 2007 para 44% em 2016. Mas perceba que apesar do avanço, esse dado não condiz com o percentual de mulheres na população brasileira que segundo o IBGE é de 51,03%.

O trabalho “Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das Mulheres no Brasil”, também realizado pelo IBGE diz que as mulheres trabalham em média três horas por semana a mais que os homens, considerando trabalho remunerado, atividades domésticas e cuidados com pessoas. E mesmo com um nível educacional mais alto e mais qualificação, elas ganham em média 76% do rendimento pago aos homens.

Em agosto de 2019, num relatório divulgado em Lima, no Peru, a OIT – Organização Internacional do Trabalho trouxe mais um alerta sobre as condições desfavoráveis que as mulheres da América Latina e Caribe enfrentam no mercado de trabalho e que não se restringem apenas a questão salarial.

De acordo com o relatório, a taxa de desemprego feminina excede a masculina e persistem as barreiras culturais na entrada de homens e mulheres em segmentos importantes dos mercados de trabalho predominantemente femininos, como o serviço doméstico e também nos predominantemente masculinos, como a mineração.

O estudo mostrou que essas “brechas de gênero” não são apenas um problema de direitos, mas também econômico, pois atrapalham o crescimento dos países.

Potencial econômico e social das mulheres

Mesmo diante de um panorama desigual, existe algo que precisa ser considerado: o potencial das mulheres para o crescimento  do mercado como um todo.

O estudo da OIT – Perspectivas Sociais e de emprego no mundo diz que com um aumento da presença feminina no mercado de trabalho seria possível injetar mais de R$380 bilhões na economia brasileira.

Em uma reunião do G20, grupo do qual o Brasil faz parte, foram estabelecidas metas para a redução da desigualdade de gênero nas maiores economias do mundo. No compromisso, até o ano de 2025, o Brasil precisa reduzir a diferença entre homens e mulheres em 25%.

Se todos os países baterem a meta, quase 190 milhões de mulheres passam a fazer parte do mercado de trabalho. Com isso, a estimativa é de que 5,8 trilhões de dólares sejam injetados na economia mundial.

Direitos, cidadania, esperança   

As desigualdades ainda são muitas e motivos não faltam para que mulheres – e homens – avancem nesse e contexto.

Salários, jornada dupla, hierarquia nas empresas, qualificação, disparidades no mundo corporativo, representação política, luta por mais educação, saúde, cidadania e combate feroz à violência contra mulher são pautas que precisam estar inseridas na vida de toda mulher brasileira.

O importante é entendermos que, muito mais que uma questão de gênero, a luta das mulheres passa por questões sociais e econômicas. E que esta é, antes de tudo, uma batalha árdua e contínua por direitos e cidadania.

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